morri.

Apr. 12th, 2010 02:29 pm
diceaway: ([gaga] retro)
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O carnaval brasileiro

     Se carnaval, em acepção popular, é confusão, trapalhada, desordem, como está lá no DICIONÁRIO DO AURÉLIO, estejam certos de que a coisa não se restringe a três ou quatro dias anuais aqui no Brasil. É dose para 365 dias. Ou 366, nos bissextos...
     E o procedimento é antigo. Secular. Desde o descobrimento. Que a turma discute se foi casual ou intencional ...
     Imaginemos a cena. Cabral aproxima-se do Porto Seguro, vê dois antepassados do Juruna na praia e pergunta prum deles:
     - Isso aí é Índia?
     O índio olha pro companheiro com ar gozador e responde:
     - Ele leva jeito, mas jura que é macho...
     Cabral percebe que o cara não entendeu e insiste:
     - Como estás a chamaire essa terra?
     - Pindorama.
     - Pindó o quê?
     - Pindorama. Por enquanto.
     E agora quem interroga é o índio:
     - E você? Como se chama?
     - Pedro Álvares Cabral.
     E o índio pro seu colega:
     - Pronto! Fomos descobertos! Danou tudo!
     Era verdade. E tome confusão, trapalhada, desordem. Pelo que está lá no Aurélio, tome carnaval...
     Vem o Martim. Vêm os primeiros escravos. Surgem as capitanias hereditárias. Vem o Tomé pra ver pra crer. Os jesuítas. Os franceses também vêm. Os holandeses...
     Surgem as entradas. As bandeiras tropeçam na Linha de Tordesilhas e passam adiante. Descobrem ouro e pedras preciosas. Os governantes mandam tudo pra Portugal e este pra Inglaterra.
     Tráfego pra lá e tráfico pra cá. Navio Negreiro. Vozes d' África. Quilombo dos Palmares. Guerra dos Emboabas. Guerra dos Mascates. Os franceses de novo. II n'est pas un pays sérieux. Os jesuítas são expulsos. Inconfidência Mineira. O diabo.
     Aí Napoleão dá um aperto nos portugueses, fazendo com que a família real com toda a corte saia às carreiras de Lisboa para passar uma boa temporada no Brasil.
     E naquela pressa toda, D. Maria I - que estava louca mas não era boba - foi logo exclamando:
     - Gente, não corre não, que eles vão pensar que estamos fugindo!
     E estavam...
     Mas já tinham as casas de praia garantidas: em muitas residências elegantes do Rio de Janeiro havia o PR. Que nada tem a ver com Partido Republicano. Mas era apenas as iniciais de Príncipe Regente. O que havia "requisitado" as casas...
     Uma vez em terra firme, D. João, o dito cujo, abriu os portos para as nações amigas, permitiu a criação de alguns jornais e alguns cursos superiores - coisas "terríveis e perigosas" - e foi plantar as palmeiras do Jardim Botânico, isso porque não gostava de ficar em casa, onde havia uma tal de D. Carlota Joaquina, aliás muito feia e muito chata.
     Quando teve notícias de que Napoleão havia perdido a guerra, D. João mandou um corvo e uma pomba para uma sondagem da situação, tendo um e outra voltado de mãos abanando. Esperou mais cem dias, Napoleão finalmente teve seu Waterloo e nova pomba é enviada pras bandas de Portugal, tendo agora ela retornado com um par de tamancos, demonstrando que, se Elba não dera conta, agora Santa Helena não tinha falhado.
     Mas antes de ir-se embora, D.João VI, agora rei do Brasil, Portugal e Algarve, chamou um play boy que tinha em casa e disse:
     - Pedrinho, se estiveres a perigo, pega a coroa antes que outro o faça!
     Pedrinho, porém, gostava mesmo era de broto. Nem se importava que se chamasse Domitila...
     E, enquanto as Cortes de Lisboa ordenavam: "Vem pra cá, Pedrinho!", ele ia pra Santos...
     E numa dessas idas, comeu uma feijoada meio arretada, de modo que a viagem de volta teve várias interrupções. Numa delas, quando se encontrava atrás de uma moita, às margens plácidas do Ipiranga, gritou pro pessoal:
     - Tem papel?
     E eles:
     - Tem sim. O mensageiro trouxe uma carta do Boni e da Leopoldina, que você diz que é um trem. O negócio não "tá" bom não! Sai dessa...
     Pedrinho saiu e propôs a primeira questão de dupla escolha:
     - Independência ou Morte!
     A turma ficou apavorada, não sabia o que fazer, e Pedrinho virou Pedro I. Mas o rapaz não gostava do primeiro; preferia o quarto.
     E a Domitila:
     - Pára, Pedro; Pedro, pára ...
     Daí, apesar de antigo "fico", lá foi ele ser Pedro IV em Portugal, deixando como herdeiro (sem cacófato) o filho de cinco anos.
     Você vai dizer :
     - Filho de Pedro é Pedrinho ...
     Não é bem assim. O outro Pedro era quietinho. Tinha cara de coroinha. Levava jeito para governar. Tanto que, aos 15 anos, já era declarado "maior" e coroado Imperador!
     Começando a carreira cedo, D. Pedro II imperou muito, sendo o campeão de governo pessoal no Brasil.
     Era inspirado o imperador, tanto que, um século antes de Sarney e mais de um século antes de um Presidente intelectual, lá na Europa já liam poemas de um chefe de estado brasileiro. E para cá começaram a vir colonos italianos, poloneses, alemães, sem essa de espírito de dominação. Sem pasta do FMI. Sem ditar quem vai ser Presidente do Banco Central.
Briga boa foi contra os paraguaios, embora a gente ande sabendo que a coisa não foi bem assim ...
     Mas como tudo que é longo cansa, nos últimos anos seu prestígio já não era o mesmo. Sobretudo depois da abolição da escravatura. Tanto que a turma do PR - agora, sim, Partido Republicano - já queria acabar com a monarquia. Ainda que houvesse algum respeito:
     - Gente, esperem o homem morrer!
     Como, entretanto, o xará dele lá de cima demorasse a chamá-lo, Deodoro perdeu a paciência e nem colocou a farda, a espada , o quepe...
     Arrancou o chapéu mesmo e proclamou a República!
     A velha bem mais velha...
     Aí, conversa vai, conversa vem, leite pra lá, café pra cá, as oligarquias rurais dando sinal de senectude, os tenentes azucrinando, o inconformismo se generalizando e pluft: estoura a bolsa de New York. Pronto! 
     Revolução de 30. Adeus, República velha! Getúlio, Paulistas, Bernardes. Prestes e Plínio Salgado. Tempero difícil. Estado Novo. Nazismo. Fascismo. Os brasileiros vão à guerra lutar ao lado ... dos países democráticos. Vitória contra o totalitarismo. Getúlio cai.
     Começa outra República, que depois vão chamar também de velha...
     Dutra põe o povo pra comer broa. Getúlio volta. JK constrói Brasília. Jânio proíbe briga de galos. João Goulart sonha com as reformas de base. Os militares tomam o poder. Brizola atravessa a fronteira vestido de mulher...
     Castelo Branco não sabe onde colocar a gravata. Costa e Silva enriquece o anedotário nacional, Médici incrementa a tortura e Geisel elege o João, que ameaça prender e arrebentar ...
     E aí surgem as "diretas já", que contam com o apoio do povo nas ruas e do Zequinha no Congresso, razão por que Sarney corre ao Palácio e pede desculpas ao João, o inesquecível.
     Mas o mundo dá muitas voltas - todas de 360 graus - e Sarney acaba candidato a vice na chapa de Tancredo, sem que o povo proteste. Afinal o Jô estava sempre perguntando:
     - Pra que serve o vice?
     Não sabia ele... Serve para usurpar a Presidência e fazer o João sair pelas portas do fundo. Serve para substituir o Collor, que não caçou marajás, mas foi cassado. Nada contra. Mas nada contra a maré o povo que não enxerga o óbvio ... É o FIM. Ou FMI ...
     E tome raposa para cuidar do galinheiro. Vampiro para cuidar do banco de sangue. Dionysos para tomar conta da adega... Deus nos acuda! Senão 2000 não chegará...
     E tome confusão, trapalhada, desordem. Pelo que está lá no AURÉLIO, tome carnaval...


(Texto em que a História do Brasil em seus 500 anos é carnavalizada, retirado de "Humanas em Destaque", n° 4, jornal oficial do IV Congresso e IV Mostra de Ciências Humanas, Letras e Artes)




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Mel Castro

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